Uma das manifestações culturais de maior relevância no Brasil, o Carnaval vai muito além da folia e da diversão, expressando a diversidade que marca a formação cultural do país. Trata-se de uma celebração coletiva da cultura brasileira, presente nas músicas, nas fantasias, nos blocos de rua e também em contextos educativos, como as festas escolares, onde se transforma em espaço de convivência, troca cultural e aprendizagem.
O que muitas pessoas não sabem, porém, é que o Brasil não “inventou” o Carnaval. A festa é resultado de uma longa construção histórica, marcada por influências de diferentes povos, culturas e períodos. Por isso, não existe uma única versão sobre sua origem. Considerando o contexto de uma das principais celebrações culturais do ano, este conteúdo busca contextualizar essas manifestações e como elas foram se transformando ao longo do tempo até chegar às formas que conhecemos hoje.
As raízes do Carnaval na Antiguidade (em ordem cronológica)
As origens do Carnaval remontam a civilizações antigas, muito antes do surgimento da festa como a conhecemos atualmente e até mesmo antes de sua chegada ao Brasil. Diversos povos da Antiguidade realizavam celebrações ligadas aos ciclos da natureza e à colheita. Essas festas apresentavam elementos simbólicos semelhantes aos que hoje associamos ao Carnaval, como a suspensão temporária da ordem social, a vivência do excesso e momentos coletivos de liberdade, mediados por rituais, música e dança.
Mesopotâmia (aproximadamente 3000 a.C.)
Os registros mais antigos de celebrações com características semelhantes ao Carnaval vêm da Mesopotâmia, especialmente da região da Babilônia. Ali aconteciam as festas populares conhecidas como Saceias, que, durante alguns dias, promoviam uma inversão simbólica da ordem social.
Nesse período, pessoas escravizadas podiam ocupar simbolicamente o lugar de seus senhores, usar vestimentas associadas à nobreza, participar de banquetes e expressar críticas ou zombarias às autoridades. Não se tratava de uma igualdade social real, mas de uma suspensão ritualizada das hierarquias, permitida e controlada no contexto religioso da época.
Em algumas versões do ritual, um prisioneiro ou escravizado era escolhido para representar simbolicamente o rei durante a celebração, desfrutando de privilégios temporários. Ao final, esse personagem era sacrificado, em um gesto que simbolizava o encerramento de um ciclo e o restabelecimento da ordem. Essas festas possuíam forte caráter religioso e simbólico, ligadas à renovação do tempo, à relação com os deuses e à organização da vida social.
Grécia Antiga (aproximadamente 600 a.C.)
Na Grécia Antiga, o Carnaval não existia como festa com esse nome, mas como espírito e prática cultural. Ele se manifestava principalmente nas festas dionisíacas, celebrações dedicadas a Dionísio, deus associado ao vinho, ao êxtase e à ruptura temporária das normas sociais.
Durante algumas dessas celebrações, cidades gregas realizavam procissões, apresentações musicais, danças coletivas e práticas ritualísticas que envolviam o consumo simbólico de bebidas em contextos religiosos. O objetivo não era a desordem descontrolada, mas manifestações que possibilitavam a vivência de emoções e formas de expressão fora da rotina cotidiana.
O uso de máscaras e adereços tinha um significado central nessas festas. Esses elementos não eram apenas decorativos ou festivos, mas simbólicos e religiosos: ao ocultar o rosto, a máscara suspendia a identidade individual e permitia que o participante assumisse um papel coletivo ou ritual. Esse recurso criava uma experiência de pertencimento e de diluição temporária das diferenças sociais.
Essas festividades contribuíram para o surgimento do teatro grego, especialmente a tragédia e a comédia. A comédia, em particular, utilizava a sátira para comentar costumes, figuras públicas e aspectos da vida social, um traço que permanece presente em muitas manifestações carnavalescas contemporâneas.
Roma Antiga (aproximadamente 200 a.C.)
Se a Mesopotâmia apresentou as primeiras formas ritualizadas e a Grécia deu dimensão simbólica e artística a essas celebrações, foi na Roma Antiga que esse espírito ganhou uma organização social mais ampla, onde se destacam as Saturnálias: festas públicas e muito populares dedicadas ao deus Saturno.
Durante as Saturnálias, havia uma suspensão simbólica das normas sociais: pessoas escravizadas e senhores participavam juntos das celebrações, práticas como jogos e banquetes eram permitidas e o riso ocupava o espaço público. Assim como nas culturas anteriores, não se tratava de uma ruptura definitiva da ordem, mas de um momento ritualizado, com início e fim definidos, que permitia à sociedade aliviar tensões e reafirmar seus próprios limites.
Com a expansão e consolidação do Cristianismo, essas festas não desapareceram. Elas foram gradualmente reorganizadas, reinterpretadas e deslocadas no calendário, passando a se concentrar no período que antecede a Quaresma. Essa estrutura, herdada da tradição romana, influenciou as celebrações medievais europeias.

Como o Carnaval chegou ao Brasil
A origem do Carnaval no Brasil tem relação direta com a chegada dos portugueses, durante o período da colonização, entre os séculos XVI e XVII. A principal forma inicial dessa celebração era o Entrudo, uma festa popular europeia realizada antes da Quaresma.
No Entrudo, as pessoas iam às ruas brincar e interagir intensamente, utilizando água, farinha, ovos e outros elementos. Embora muitas vezes descrito como caótico, esse tipo de celebração cumpria uma função social semelhante às festas antigas: liberar tensões antes de um período de maior disciplina religiosa.
Com o tempo, diferentes grupos sociais passaram a participar ativamente dessas manifestações. Pessoas escravizadas, libertas e populações marginalizadas ressignificaram o Entrudo, transformando-o em um espaço de expressão corporal, cultural e simbólica. As tentativas de proibição por parte das elites e autoridades contribuíram para reforçar seu caráter popular.
A origem do Carnaval como conhecemos hoje
O grande ponto de transformação ocorreu entre o século XIX e o início do século XX, quando as tradições europeias se encontraram com as culturas africanas trazidas pelos povos escravizados. Ritmos, danças, percussão, canto coletivo e elementos da religiosidade afro-brasileira passaram a ocupar lugar central nas celebrações.
No Rio de Janeiro, essa mistura deu origem aos cordões, ranchos, blocos e, posteriormente, às escolas de samba. O Carnaval deixou de ser apenas um evento ligado ao calendário religioso e passou a se afirmar como expressão cultural, identidade popular e espaço de resistência e criação coletiva.
Por que trabalhar a origem do Carnaval no contexto escolar?
Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, a origem do Carnaval pode ser abordada de forma lúdica, respeitosa e educativa, promovendo aprendizagens importantes, como a ampliação do repertório cultural, o desenvolvimento da linguagem oral e artística, a valorização da diversidade e o contato com diferentes formas de expressão humana ao longo da história.
Ao contextualizar a origem do Carnaval, o professor contribui para os estudantes desenvolverem a compreensão histórica das manifestações culturais, reconhecendo que as festas populares são construções sociais resultantes de processos históricos complexos e de múltiplas influências culturais. Essa abordagem favorece a análise das formas de organização social ao longo do tempo, amplia o repertório cultural dos alunos e possibilita o trabalho com habilidades relacionadas à interpretação histórica, à valorização da diversidade e à reflexão sobre identidade e pertencimento, em consonância com os objetivos formativos da Educação Básica.
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