CASA DE HÓSPEDES 

O ser humano é como uma casa de hóspedes 
Toda manhã, uma nova chegada 
Uma alegria, uma tristeza, uma mesquinhez 
Uma percepção momentânea chega,  
como visitante inesperado 
Acolha a todos! 
Mesmo se for uma multidão de tristezas,  
que varre violentamente sua casa  
e a esvazia de toda a mobília 
Mesmo assim,  
honre a todos os seus hóspedes. 
 
Eles podem estar limpando você  
para a chegada de um novo deleite, 
O pensamento escuro, a vergonha, a malícia 
Receba-os sorrindo à porta e convide-os a entrar 
Seja grato a quem vier. 
Porque todos foram enviados 
Como guias do além.

Este poema de Rumi, poeta persa do século XIII 

O que é acolher?

Como diz o poeta Rumi, todos nós somos como uma casa de hóspedes, somos feitos de gente, emoções e sentimentos, dores, rancores e às vezes sofrimentos. Precisamos praticar o acolhimento emocional. Aprender a acolher em nós cada sentimento, como também, acolher o outro com suas bagagens emocionais. 

Acolher, vem do Latim ACOLLIGERE, “levar em consideração, receber, acolher”. Acolhimento emocional é oferecer ou obter refúgio, uma proteção para o conforto físico e emocional, é abrigar(-se), amparar(-se).  

Todos nós estamos, nesse momento da pandemia, precisando de acolhimento. Vivemos momentos que parecem uma “gangorra dos sentimentos”. A gangorra é um brinquedo de parque que precisa do outro para brincarmos: às vezes, estamos no alto; às vezes, estamos embaixo.  

Assim como nas emoções e sentimentos, há momentos em que estamos bem e em outros não. Há momentos em que sentimos alegria pelo fato de a família estar reunida e com saúde; em outros momentos, sentimos insegurança, medo e raiva de um vírus tão pequenino, que provoca tantos danos à saúde, a ponto de, para protegermos as pessoas, não podermos nos deslocar ou ir à escola. 

O importante é que, nessas horas, a gente possa escutar os nossos próprios sentimentos e das pessoas que estão em nosso entorno. A gangorra nos mostra que sozinhos não conseguimos resolver todos os nossos problemas e ela também nos lembra que sempre terá alguém que vai nos ajudar, apoiar e oferecer acolhimento emocional. 

Por isso, na escola, mesmo que de portas fechadas, seja de forma remota ou no modo híbrido, podemos ofertar um “lugar” e um “espaço” de encontro, um espaço para acolher as emoções, formando um grande território de afetos.  

A nossa saúde emocional e mental foi tão abalada e o fato de estarmos distantes social e fisicamente de pessoas que gostamos e amamos, o fato de não podermos ir trabalhar como antes, de passear e ficarmos por horas frente a tela do computador ou da televisão, tem afetado nosso estado de ânimo. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o distanciamento social alterou os padrões de comportamento da sociedade. O fechamento de escolas, a mudança dos métodos e da logística de trabalho e de diversão, minaram o contato próximo entre as pessoas e diminuirão o acolhimento emocional, que são fatores de extrema importância para a saúde mental. 

O convívio prolongado dentro de casa aumentou o risco de desajustes na dinâmica familiar. Soma-se a isso as reduções de renda e o desemprego, temos um cenário que piora ainda mais a tensão sobre as famílias. E temos ainda as mortes de entes queridos em um curto espaço de tempo, juntamente à dificuldade para realizar os rituais de despedida, impossibilitando a experiência de luto e impedindo a adequada ressignificação das perdas, o que aumenta o estresse.  

Segundo a OMS é possível prever algumas reações mais comuns entre as pessoas nesse período: medo de ficar doente e morrer; evitação de procurar um serviço de saúde por outros motivos, por receio de se contaminar; preocupação com a obtenção de alimentos, remédios ou suprimentos pessoais; medo de perder a fonte de renda, por não poder trabalhar, ou ser demitido; alterações do sono, da concentração nas tarefas diárias, ou aparecimento de pensamentos intrusivos; sentimentos de desesperança, tédio, solidão e depressão devido ao isolamento; raiva, frustração ou irritabilidade pela perda de autonomia e liberdade pessoal; medo de ser socialmente excluído ou estigmatizado por ter ficado doente; sentir-se impotente em proteger as pessoas próximas, ou medo de ser separado de familiares por motivo de quarentena/isolamento; preocupação com a possibilidade de o indivíduo ou de membros de sua família contraírem a Covid-19 ou a transmitirem a outros; receio pelas crianças em casa não receberem cuidados adequados em caso de necessidade de isolamento; risco de deterioração de doenças clínicas e de transtornos mentais prévios ou, ainda, do desencadeamento de transtornos mentais; risco de adoecimento de profissionais de saúde sem ter substituição adequada; medo, ansiedade ou outras reações de estresse ligadas a notícias falsas, alarmistas ou sensacionalistas, e mesmo ao grande volume de informações circulando. 

Por esses e outros tantos motivos, precisamos construir uma rede de apoio para acolhimento emocional na escola e em outros ambientes, seja para ajudar crianças, jovens, profissionais da educação ou familiares, para que juntos possamos realizar essa travessia da vida. 

Acolher as emoções é, então, quando nos colocamos à disposição do outro, para oferecer uma escuta sensível, ou para apoiar por meio do diálogo conduzindo a outra pessoa a refletir sobre o que sente. Pois, só assim, falando e escutando o outro é que conseguiremos ajudar as pessoas a aliviarem a carga de estresse.  

Há décadas atrás, os seres humanos não falavam sobre suas emoções, as escondiam, e sufocar e esconder o que sentimos não contribui para o nosso bem-estar. Talvez, até hoje, muitas pessoas não saibam sequer da importância do desenvolvimento de habilidades emocionais. 

Acreditamos que na educação, a construção de um projeto de humanização é o que possibilitará a abertura da consciência sobre o impacto das emoções e sentimentos na nossa vida. A educação para o século XXI exigirá de todos, não só o desenvolvimento das habilidades cognitivas e nem só saberes das áreas do conhecimento, mas também o acolhimento socioemocional e a orientação para que nossas crianças e jovens possam se desenvolver integralmente.  

Desenvolver todas as competências que os alunos necessitam para enfrentar os desafios do século inclui acolher as emoções que eles carregam dentro de si. Enquanto o mundo abre espaço e cobra que os jovens sejam protagonistas de seu próprio desenvolvimento e de suas comunidades, o ensino tradicional ainda responde com modelos criados para atender demandas antigas.  

A realidade é que o ser humano é definitivamente complexo e, para desenvolvê-lo de maneira completa, é necessário incorporar estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes e oferecer uma rede de acolhimento emocional.  

Como dizem os especialistas na área da inteligência emocional, uma das saídas para reconectar o indivíduo ao mundo onde ele vive passa pelo desenvolvimento de competências socioemocionais, como a capacidade de acolher as emoções. Nesse processo, tanto crianças como adultos aprendem a colocar em prática as melhores atitudes e habilidades para controlar sentimentos, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter relações sociais positivas, tomar decisões de maneira responsável, entre outros.  

Uma abordagem como essa pode ajudar, por exemplo, na elaboração de práticas pedagógicas mais justas e eficazes, além de explicar por que crianças de um mesmo meio social vão trilhar um caminho mais positivo na vida, enquanto outras, não. 

A educação vai apresentando o mundo externo e interno de sentimentos, um espaço para dar instrumentos às pessoas para que elas possam demonstrar o que sentem e que nem sempre conseguem (ou não aprenderam) colocar em palavras.  

É importante lembrar que existem muitos estudos sobre os sentimentos e as emoções, mas, aqui, queremos apenas elucidar algumas questões, as quais podem contribuir para que não sufoquemos o que estamos sentindo. 

O neurocientista António Damásio, em seus estudos e pesquisas sobre o Cérebro Humano, demonstra como as emoções e sentimentos são inseparáveis da razão humana. Por isso, para aprender, é preciso cuidar e semear os sentimentos e acolher as emoções. Ele esclarece como estes dois fatores influenciam as tomadas de decisões, a razão humana e a mente. 

Estudos apontam que apenas o ato de desenvolver as habilidades cognitivas na escola não basta mais: é imprescindível que crianças e jovens aprendam habilidades não cognitivas. Essas habilidades podem ser chamadas de competências socioemocionais. 

Recentes pesquisas sobre inteligência social apontam que crianças a partir dos três e quatro anos são capazes de aprender a identificar e a autorregular suas emoções. Isso possibilita o crescimento de uma criança, um adolescente ou um adulto mais seguro, confiante, proativo e criativo. 

O filme de animação Divertida Mente, do diretor Pete Docter, produzido pela Disney em 2015, mostra às crianças o quanto a nossa mente convive com emoções diferentes e que é possível nos esforçarmos para termos mais momentos felizes do que sentindo raiva, por exemplo. 

Há algumas décadas, não falávamos na escola sobre sentimentos, mas, hoje, sabemos que eles influenciam no desenvolvimento cognitivo, social e físico das crianças e adultos. Afinal, quando estamos irritados ou com medo, mal conseguimos pensar e nosso cérebro parece paralisar. Por isso, é importante que aprendamos a regular nossas emoções e a desvendar os sentimentos que, às vezes, nos angustiam ou que nos dão sensação de bem-estar. 

O desenvolvimento das competências socioemocionais, previsto na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), pode ajudar a transformar o cenário de violência e de agressividade que presenciamos em nossa sociedade. Precisamos entender a importância de desenvolver nos estudantes e docentes essas competências, e do acolhimento emocional para professores e alunos, a fim de que a escola seja um espaço mais afetuoso e acolhedor. Além disso, as famílias também podem, de certa forma, ajudar a falar mais sobre as emoções e sentimentos. 

A BNCC apresenta 10 competências gerais que, ao longo da Educação Básica, devem ser asseguradas a todos os estudantes.  

Segundo a BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho.  

Três das dez competências remetem ao desenvolvimento de competências socioemocionais:  

Autoconhecimento e Autocuidado 

Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas;   

Empatia e Cooperação 

Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza;  

Responsabilidade e Cidadania 

Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. 

Nas escolas, as crianças aprenderão para além das 10 competências, mas, enquanto estamos em isolamento social, as famílias podem contribuir dialogando sobre as emoções, aprendendo a expressar o que sentem. É vital dar valor ao que sentimos e aprender a autorregular as emoções, dando ainda mais importância ao acolhimento emocional na pandemia.  

Por exemplo, quando estamos com raiva, devemos tentar nos acalmar, para não agredirmos ninguém, seja verbal ou fisicamente. Quando estamos sentindo raiva, não pensamos direito nas nossas ações, por isso, é preciso reconhecermos o que sentimos para, então, tentarmos buscar formas de ajuda. 

Qual a diferença entre emoção e sentimento? De acordo com António Damásio, autor da obra “E o cérebro criou o homem”, a emoção é um conjunto de todas as respostas motoras que o cérebro faz aparecer no corpo em resposta a algum evento. É um programa de movimentos como a aceleração ou a desaceleração do batimento do coração, tensão ou relaxamento dos músculos e assim por diante. 

Já o sentimento é a forma como a mente vai interpretar todo esse conjunto de movimentos. Ele é a experiência mental daquilo tudo. Alguns sentimentos não têm a ver com a emoção, mas sempre têm a ver com os movimentos do corpo. 

As emoções, tanto as positivas como as negativas, podem ter uma enorme influência naquilo que nós pensamos. Mesmo as pessoas que se dizem muito racionais não podem separar as duas coisas.   

As emoções foram extremamente bem-sucedidas, ao longo da evolução, em nos manter vivos. O medo fez com que nos expuséssemos menos ao perigo e tivéssemos mais chances de sobrevivência. A alegria incentivou-nos a prosperarmos: exercitamos a mente, inventamos soluções para problemas, comemos, reproduzimo-nos. Emoções como a compaixão, a culpa e a vergonha são importantes, porque orientam nosso comportamento moral.  

Se você fizer qualquer coisa que não está correta em relação à outra pessoa, vai sentir-se envergonhado e terá um sentimento de culpa. Isso é muito importante, porque vai ajudar a manter a sua conduta de acordo com a convivência em sociedade.  

Os sentimentos são diferentes entre si e se manifestam de diversas formas: por isso, é importante falarmos deles. 

Referências Bibliográficas

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BARROS, MBA, et al. Relato de tristeza/depressão, nervosismo/ansiedade e problemas de sono na população adulta brasileira durante a pandemia de COVID-19. Epidemiol Serv Saúde. 23 p., 2020. 

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DAMÁSIO, António. O Mistério da Consciência: do corpo e das emoções do conhecimento de si. Companhia das Letras. São Paulo, 2000. 

E o cérebro criou o homem. Companhia das Letras. São Paulo 2011. 

D’ELÍA, Karla Alessandra de Amorim. Uma Abordagem Psicológica Sobre o Medo. 

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DAVID, Susan. Agilidade Emocional. São Paulo: Cultrix, 2018. 

GOLEMAN, Daniel & SENGE, Peter. O foco triplo – Uma nova abordagem para a educação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015. 

TOUGH, Paul. Uma questão de caráter: por que a curiosidade e a determinação podem ser mais importantes que a inteligência para uma educação de sucesso. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011. 

TOUGH, Paul. Como ajudar as crianças a aprenderem. Rio de janeiro: Intrínseca, 2017. 

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