A pandemia de Covid causou uma grande tragédia e um enorme prejuízo social e financeiro. Um dos setores mais afetados foi a educação, que tanto depende do contato social. Professores viram-se separados de seus alunos, tendo de aprender praticamente da noite para o dia a utilizar recursos digitais para dar suas aulas. Mesmo com o esforço e a dedicação dos professores, muito foi perdido — mesmo que a tecnologia tenha, de fato criado uma ponte entre os mestres e suas classes.

Com o avanço da vacinação, os alunos estão voltando para as escolas e os professores, voltando a lecionar como antes. Mas e quanto à tecnologia que aprendemos a usar? Vamos abandonar? Será que não temos a oportunidade de adotarmos um novo modelo de ensino, híbrido, em que a tecnologia possa nos ajudar a fazer um trabalho melhor e mais eficaz? Bem, depende… Sabemos que crianças e adolescentes gostam muito de tecnologia e de usar os diversos dispositivos a que têm acesso. Só que não necessariamente gostam de usá-los para estudar. Além disso, ensino híbrido, mais tecnológico, não significa necessariamente um ensino mais eficaz, porque não é um ensino necessariamente ativo.

No entanto, a disponibilidade de dispositivos digitais auxilia, efetivamente, na implementação de algumas das chamadas “metodologias ativas”, métodos que buscam um maior envolvimento do aluno — na verdade, na transformação do aluno no agente de seu aprendizado. Nesse processo, ao contrário do que muitos acreditam, o papel do professor não é diminuído, mas é alterado. Em vez de gastar seu tempo tentando transmitir conteúdo, de forma oral e/ou escrita, o professor passa a planejar uma experiência para seus estudantes, uma experiência que ele vai mediar como um guia e orientar como um mentor. Nas metodologias ativas, são propostas atividades práticas em que o aluno é estimulado a pensar e sair de sua zona de conforto por meio da exposição a problemas que precisa resolver sozinho ou em conjunto com os colegas. Como estímulo a atividades colaborativas, essas estratégias estimulam a inovação e a criatividade.

Metodologias ativas

As metodologias ativas são muitas, e você pode inventar uma hoje mesmo, basta que com ela você consiga estimular seus alunos a aprender por si mesmos. Vale a pena, no entanto, conhecer algumas metodologias que já vêm sendo usadas com muito sucesso ao redor do mundo: a sala de aula invertida, a aprendizagem baseada em projetos, a rotação por estações e a rotação individual.

a. A sala de aula invertida pode ser resumida como: teoria estudada pelo aluno sozinho, prática feita na classe com os colegas e o professor. Em vez de ver a teoria em sala, sem possibilidade de interação com os colegas e com o assunto, os estudantes a estudam em casa com os materiais (livro, vídeos, áudios etc.) indicados pelo professor e vão para a aula aplicar o que aprenderam, fazendo exercícios, discussões em grupo, projetos ou o que mais o professor julgar eficiente para o desenvolvimento de habilidades e construção de conhecimento significativo.

b. A aprendizagem baseada em projetos, ou PBL (project-based learning), é uma maneira de estimular os estudantes a buscar conhecimentos e desenvolver habilidades para atingir um desafio que faz sentido para eles. A partir das próprias sugestões dos alunos, um projeto é escolhido para ser desenvolvido durante determinado período. Pode ser algo simples, a ser desenvolvido em uma aula de uma única disciplina, ou um grande projeto multidisciplinar, com duração de meses. Para uma boa atividade de PBL, é importante que os grupos sejam montados de maneira estratégica pelo professor, mesclando habilidades, personalidades e gostos diferentes, de modo que os grupos tenham já de início muitos recursos a serem compartilhados. Caso o projeto requeira algum conhecimento prévio, pode-se fazer um “teste de prontidão” dos grupos, propondo que façam o mesmo teste sozinhos e depois em grupo, para que já sejam estimuladas discussões e a chamada peer-to-peer learning, ou “aprendizagem por pares”.

c. Na rotação por estações, a sala é organizada em estações de aprendizagem e os grupos ‘rodam’ por elas, desenvolvendo atividades com objetivos de aprendizagem diferentes, mas complementares. Enquanto os alunos se revezam nas estações de trabalho, onde podem trabalhar com tecnologia, materiais de laboratório ou mesmo materiais desenvolvidos por eles mesmos, o professor atua como mediador, esclarecendo dúvidas e gerenciando conflitos. Com essa forma de ensino personalizado, em que todos os alunos têm a oportunidade de entender e tirar suas dúvidas, eles constroem ativamente suas aprendizagens.

d. Na rotação individual, procura-se dar a oportunidade aos alunos de desenvolver seus projetos individuais, mas com a ajuda do grupo. As estações de aprendizagem são organizadas por atividade (ex., planejamento, aplicação, comunicação etc.). Assim como na rotação por estações, os alunos revezam-se nas estações de trabalho enquanto o professor atua como mentor, mas vão aprendendo as atividades de modo a aplicá-las em seus projetos individuais. A colaboração acontece de maneira natural, pois, mesmo que os projetos sejam diferentes, as dúvidas e os problemas são semelhantes e os alunos ajudam uns aos outros.

Por que novos planos de aula

Como tudo o que vale a pena fazer, aulas com metodologias ativas requerem planejamento. Para que os estudantes sejam de fato os atores de seu próprio desenvolvimento, é preciso que os professores preparem o terreno e planejem cada etapa do caminho. Rompendo com métodos ultrapassados, os professores abdicam das aulas expositivas, deixando a fala para toda a classe para quando é necessária uma explicação geral ou um esclarecimento ou quando, para motivar os alunos, se usam técnicas de contação de histórias. No restante do tempo, cabe ao professor estimular as discussões em grupo e propor desafios que estimulem a criatividade e a busca de conhecimentos. Esse novo tipo de planejamento, portanto, requer um novo processo:

  • Defina os objetivos: O que se quer ensinar? Qual a intenção da aula?
  • Defina o tempo: escolha as habilidades mais importantes.
  • Escolha os recursos: verifique o que está disponível na escola e, desses, quais pode usar.
  • Escolha a metodologia ativa a utilizar: deve acompanhar os objetivos de aprendizagem e a demanda dos alunos. Pode-se utilizar mais de uma metodologia para um único conteúdo.
  • Relacione seu plano de aula com a BNCC: quais atividades devem ser trabalhadas para o desenvolvimento das habilidades.
  • Defina como avaliará se seus objetivos foram alcançados e se os alunos aprenderam.

Esse último item é da maior importância, pois, se estamos desenvolvendo centenas de habilidades diferentes, como isso pode ser testado com uma única forma de avaliação? Para um aprendizado ativo, avaliações ativas: apresentações, exposições, maquetes, cenários, teatro, vídeos, músicas, blogs, vlogs, portfólios, a lista é enorme. Afinal, decorar alguns conceitos para uma prova é fácil, mas depois de algum tempo não restou nenhum aprendizado; construir os conhecimentos e as habilidades para fazer, digamos, um foguete, é mais difícil, mas o aprendizado dura a vida toda.

Milena Steger

Milena Steger é co-fundadora da Merit Consultoria e pedagoga pós-graduada em psicopedagogia e gestão de projetos escolares. Especialista em projetos para Educação Infantil e Ensino Fundamental, desenvolve e ministra cursos e formações para escolas e educadores.

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