Como sabemos, o estudo da neurociência nos permitiu entender como funciona o cérebro, como ele aprende e as razões para problemas de aprendizagem. Com isso, foi possível distinguir quando esses problemas têm origem externa — portanto com causas que podem ser combatidas — ou internas, portanto inerentes ao indivíduo.

Neste artigo, faremos uma introdução ao tema dos problemas de aprendizagem, mostrando, se não como distinguir uma causa de outra, como “desconfiar” e encaminhar a criança ou adolescente a profissionais que possam identificar melhor as causas e, a partir dessa informação, adaptar nossa maneira de trabalhar para ajudar o aluno.

Todos nós podemos ter tido alguma dificuldade na escola, talvez com alguma matéria que não gostamos tanto ou por não saber como programar os estudos, mas as dificuldades e transtornos de aprendizagem vão além de preferências ou distrações. Elas podem causar fracassos sucessivos na escola, provocando desmotivação, associações negativas com a aprendizagem e problemas de autoestima. Nosso desafio como professores é identificar quando um estudante apresenta sinais ou ‘pistas’ de que precisa de mais ajuda.

Um dos caminhos para identificar problemas de aprendizagem é conhecer os marcos do desenvolvimento da criança, publicados pela Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil. Em um de seus materiais, a SBNI propõe “Aprenda os sinais. Aja cedo.” Direcionada aos pais e professores, essa mensagem nos lembra de identificar o quanto antes as dificuldades e transtornos, pois quanto mais cedo se iniciam os tratamentos, melhores serão os resultados.

Marcos de desenvolvimento da criança

Não podemos esquecer que cada pessoa tem suas particularidades e seu desenvolvimento pode ser um pouco diferente do de outras pessoas, além de o ambiente em que se cresce também afetar muito esse desenvolvimento. No entanto, as pesquisas neurológicas ligadas ao desenvolvimento infantil conseguiram chegar a uma lista de habilidades que uma criança típica demonstra em cada período, de zero a cinco anos de idade. Essas habilidades são divididas em socioemocionais, de linguagem, cognitivas e motoras. O atraso em uma única habilidade pode significar uma característica pessoal, mas variações em mais de uma pode ser um sinal que precisa ser analisado. Duas boas fontes para pesquisar esses marcos são:

sbni.org.br

instituto saber

A partir dessas listas, pode-se saber, por exemplo que uma criança neurotípica — ou seja, que não tenha transtornos de aprendizagem — de 4 anos de idade deveria ser capaz de falar sobre seus gostos e interesses, de contar histórias, conhecer as cores e números e usar uma tesoura. Se ela não tiver uma ou mais dessas habilidades, isso não significa que ela seja uma criança neuroatípica, mas nos alerta para investigar se a criança pode ter uma dificuldade de aprendizagem ou até um transtorno do neurodesenvolvimento.

Dificuldades de aprendizagem

Quando percebemos que um aluno está saindo da curva normal de desenvolvimento, a primeira providência é analisar se há outros alunos com a mesma dificuldade na classe. Se houver, isso pode significar que a metodologia usada não esteja dando bons resultados, que o professor esteja exigindo muito, ou muito pouco, que algum fator ambiental esteja atrapalhando a classe. As razões para essas dificuldades podem ser muitas, mas uma vez eliminadas ou diminuídas as causas, o aproveitamento da turma tende a se equilibrar.

Em outros casos, podemos identificar que um estudante está tendo maus resultados em mais de uma matéria, está demonstrando desinteresse ou não consegue acompanhar as aulas como se esperaria. A razão para isso pode estar na sala de aula, como a dificuldade em se adaptar à metodologia do professor, um problema com os colegas etc., mas também pode estar fora dela, como situações de bullying, e até em casa, como um luto em família, alimentação inadequada, falta de sono e até maus tratos. Embora muitas razões para as dificuldades sejam difíceis de abordar, é certo que, uma vez eliminadas as razões, o aluno voltará a ter um bom desempenho. Há situações em que a resolução não é rápida, requerendo abordagem psicológica, para eliminar os efeitos da causa-raiz, e/ou apoio psicopedagógico, para ajudar o estudante a compensar o atraso provocado pela dificuldade.

As dificuldades de aprendizagem são mais comuns do que pensamos e podem passar despercebidas quando o estudante é ‘comportado’ e parece estar prestando atenção à aula. Essa é mais uma razão para a adoção de metodologias ativas de aprendizagem, que permitem aos estudantes se expressar e aprender uns com os outros e permitem ao professor acompanhar mais de perto como cada um se desenvolve.

No entanto, mesmo ao se identificar as dificuldades de um estudante e fazer adaptações na metodologia, é possível que ele não apresente melhoras. Um estudante pode ter uma dificuldade muito grande em escrever, memorizar ou desenvolver cálculos, ou mesmo em trabalhar em grupo com os colegas. Nesses casos, cabe ao professor e à escola explorar outras possibilidades, juntamente com os responsáveis pelo estudante. A partir de algumas perguntas sobre o desenvolvimento do aluno desde o nascimento podem dar pistas quanto à fonte do problema, que pode ser neurológica.

Transtornos de aprendizagem

Quando as dificuldades dos estudantes têm origem neurológica, são denominados transtornos do neurodesenvolvimento. Esses transtornos são condições neurológicas que aparecem na infância e tornam-se mais evidentes na fase de alfabetização

Ainda há muito desconhecimento sobre esse tipo de transtorno, às vezes tratado pelas pessoas como ‘doenças’ que possam ser ‘curadas’. Uma criança neuroatípica não tem nenhuma ‘doença’, portanto não há o que curar. O que acontece é que o cérebro delas foi formado de outra maneira e se comporta de maneira diferente, por isso são consideradas “atípicas”. As crianças neuroatípicas têm tanta capacidade de se desenvolver como as outras, mas, uma vez mais, de maneira diferente, a partir de outras metodologias. Assim, uma criança neuroatípica pode frequentar a escola normalmente, mas pode precisar de apoio, dentro e/ou fora da escola. Esse apoio pode ser psicológico, pedagógico, fonoaudiológico ou médico, ou por uma combinação destes.

Essas condições neurológicas das crianças neuroatípicas prejudicam o desenvolvimento do indivíduo nos universos pessoal, social e escolar e envolvem dificuldades de aquisição, manutenção ou aplicação de habilidades ou conjuntos de informações específicas. Podem envolver distúrbios de atenção, memória, percepção, linguagem, solução de problemas e interação social. No entanto, cada criança neuroatípica é diferente da outra. Elas podem ter um desenvolvimento acima do normal em algumas habilidades, ao passo que tem outras pouco desenvolvidas, em uma infinidade de combinações possíveis. Por esse motivo, só se chega a um laudo definitivo quanto a um transtorno após uma análise extensa e multidisciplinar, ou seja, diversos especialistas precisam testar a criança e, coletivamente, chegar a um acordo sobre o diagnóstico; somente a partir daí é possível definir um tratamento, cujo objetivo é desenvolver a habilidade de aprendizado da criança e minimizar o que prejudica sua vida escolar.

Ainda assim, mesmo antes do diagnóstico os professores e pedagogos não estão de mãos atadas e podem ajudar um estudante neuroatípico a melhorar seu desempenho na escola — as dificuldades observadas podem e devem ser tratadas especificamente. Por exemplo, se um estudante tem dificuldades para escrever, ele pode se sair bem em provas orais; se ele tem dificuldades de relacionamento social, os colegas podem ser instruídos a incluí-lo aos poucos nas atividades conjuntas. Vamos então conhecer alguns dos transtornos mais comuns.

Tipos de transtornos

Dislexia. Caracterizada pela dificuldade no reconhecimento preciso e/ou fluente das palavras, além da decodificação e soletração das mesmas, a dislexia tem como principais sintomas a dificuldade na aquisição e automação da leitura e da escrita; dificuldade em identificar rimas (sons iguais no final das palavras) e aliteração (sons iguais em um conjunto de palavras); desatenção e dispersão; dificuldade em copiar conteúdos da lousa, dentre outros.

Disortografia e disgrafia. Caracterizada por um déficit do processo cognitivo na produção textual e na ortografia, a disortografia prejudica a habilidade de produzir textos com coerência, fluência e ortografia correta. Já a disgrafia afeta a funcionalidade da escrita desenvolvida pela criança, ou seja, uma dificuldade em traçar as letras e no seu alinhamento.

Discalculia. Como o próprio nome indica, a discalculia é a inabilidade ou incapacidade de pensar, refletir, avaliar ou raciocinar em processos ou tarefas que envolvam números ou conceitos matemáticos. Seus sinais mais comuns são:

  • Dificuldade na aplicação de ideias matemáticas no dia a dia.
  • Dificuldade em identificar símbolos matemáticos.
  • Dificuldade para aprender a contar, medir e classificar objetos.
  • Confusão de números com sons similares.
  • Dificuldade para seguir sequências numéricas.
  • Escrita de números invertidos.
  • Confusão nas operações mentais e no entendimento de conceitos matemáticos.

TEA – transtorno do espectro autista. Como o próprio nome diz, existe um espectro de autismo, que passa ao longo de três níveis. Isso não quer dizer que uma criança seja ‘um pouco’ autista ou ‘muito’ autista, mas que existe uma gradação em seu autismo, conforme sua capacidade de cuidar de si mesma e de participar na sociedade. Quando tratada prematuramente, é possível que a criança ‘evolua’ de um nível para outro, à medida que desenvolve novas habilidades. Uma criança ou adolescente autista “terapeutizado” terá muito mais condições de ter uma vida independente e funcional que uma criança que não recebe esses cuidados.

Os sintomas do TEA geralmente aparecem nos primeiros dois anos de vida e mostram-se como um déficit persistente na comunicação social, na interação ou em ambos, com padrões de comportamento repetitivos e rígidos. Os primeiros sinais de TEA podem incluir: pouco ou nenhum contato visual; não compartilhar objetos; dificuldade de comunicação; dificuldade com mudanças de rotina, e dificuldade para dormir, entre outros.

É importante lembrar que o autismo pode ter transtornos associados, como o TDAH e deficiências mentais, e o diagnóstico desses transtornos pode demorar mais tempo, de modo que se pode iniciar tratamentos para as consequências do autismo antes que possam ser abordados os problemas associados.

TDAH – transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. O TDAH é um transtorno neurobiológico que surge na infância e, em muitos casos, acompanha o indivíduo na vida adulta. Ele se caracteriza por uma combinação de sintomas, como falta de atenção, agitação/hiperatividade e impulsividade. Não há nenhum exame de imagem (tomografia, raio X ou ressonância magnética) que faça o diagnóstico do TDAH. O diagnóstico é clínico, ou seja, baseado em informações e observações. Relatos detalhados dos familiares, professores e terapeutas devem ser considerados em conjunto para um bom diagnóstico. Há muitos testes para fazer avaliações prévias quanto à possibilidade de TDAH; esses testes podem indicar em que nível o estudante apresenta o déficit de atenção e a hiperatividade. Há casos em que a hiperatividade é tão ou mais alta que o déficit de atenção, mas há casos em que inexiste.

Assim como acontece com o autismo, o TDAH também pode ter transtornos associados, como o próprio TEA. O tratamento do TDAH deve ser multimodal, ou seja, uma combinação de medicamentos e orientação aos pais e professores, além de técnicas específicas que são ensinadas ao portador.

Deficiência intelectual. Caracteriza-se por uma função intelectual significativamente abaixo da média (frequentemente expressa como um quociente de inteligência menor que 70 ou 75), combinada com limitações no funcionamento adaptativo (ex., comunicação, orientação, habilidades sociais, autoproteção, uso de recursos comunitários e manutenção da segurança pessoal), junto com demonstrações de necessidade de apoio. As principais manifestações são: aquisição lenta de novos conhecimentos e habilidades, comportamento imaturo e habilidades limitadas de autocuidado.

Algumas crianças com deficiência intelectual leve podem não apresentar sintomas aparentes até a idade pré-escolar. Já a identificação precoce é comum nas formas moderadas ou graves de deficiência intelectual, quando acompanhadas por anormalidades físicas ou sinais que podem estar associados a uma causa particular da deficiência intelectual (p. ex., asfixia perinatal, paralisia cerebral ou síndromes).

A aprendizagem de estudantes neuroatípicos

Conhecer as características individuais de cada criança autista torna-se o primeiro passo para traçar estratégias de aprendizagem e avaliação desse aluno. Para que o aluno possa atingir o seu potencial e desenvolver-se da forma mais plena possível, a escola precisa reformular algumas práticas e planejar novas formas de ensinar, a fim de que haja de fato a inclusão da criança com autismo ou TDAH. A partir das necessidades pessoais de cada criança, da sua realidade e vivência, é possível proporcionar novas oportunidades de experiência e novos conhecimentos. Alguns pontos de atenção que podem ajudar o professor a ‘suspeitar’ de transtornos de aprendizagem são:

  • Problemas para formar palavras corretamente, bem como trocar a ordem dos sons.
  • Dificuldade na elaboração e compreensão da linguagem escrita.
  • Dificuldade em se concentrar e realizar uma única atividade ou tarefa.
  • Erros no reconhecimento de palavras, mesmo as mais frequentes.
  • Dificuldade para dominar o sentido numérico (ex., na aplicação de conceitos matemáticos; em crianças maiores, dificuldade de fazer cálculos simples).
  • Dificuldade de raciocinar matematicamente.
  • Dificuldade no relacionamento social.
  • Resistência a mudanças na rotina.
  • Descontrole em momentos de stress.
  • Supersensibilidade a estímulos sonoros, visuais e táteis.

É a partir da observação desses fatores que os professores podem alertar os responsáveis para a necessidade de uma análise especializada, mas também é a partir daí que vão buscar adaptações metodológicas que possam minimizar as dificuldades dos alunos e lhes dar a possibilidade de realizar seu potencial.

Bibliografia

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GOLEMAN, Daniel. O cérebro e a inteligência emocional: novas perspectivas. Objetiva, Rio de Janeiro, ed. 1, 2011, p. 1-120.
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DOS SANTOS, JANE EIRE RIGOLDI. Política de avaliações externas: a ênfase na questão das competências cognitivas e socioemocionais. 2015.

Milena Steger

Milena Steger é co-fundadora da Merit Consultoria e pedagoga pós-graduada em psicopedagogia e gestão de projetos escolares. Especialista em projetos para Educação Infantil e Ensino Fundamental, desenvolve e ministra cursos e formações para escolas e educadores.

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